segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Viagem ao deserto

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 Uma das mais entusiasmantes viagens que já fiz foi o percurso na Tunísia de Hammamet até Douz, cidade que assinala a entrada no Deserto do Sahara. Foram 8 dolorosas horas de autocarro para descobrir um mundo que parece que está parado no tempo. Ao descer vamos percebendo a mudança gradual na paisagem, cada vez mais árida.




A primeira paragem foi em El Jem, uma pequena aldeia que tem um dos grandes tesouros da antiguidade, o Coliseu de Thysdrus, o terceiro maior construído pelos romanos e, segundo o guia, um dos mais bem preservados do mundo. Assim que saímos do autocarro fomos confrontados com um bafo que não deixava dúvidas ... estávamos na Tunísia. Ao contrário do Coliseu de Roma, aqui pudemos visitar os subterrâneos onde anteriormente animais e homens aguardavam para entrar na arena. Estes túneis eram também o local mais fresco para descansar do abrasador calor tunisino (dava certamente para fazer um ovo mexido numa pedra).

Coliseu de Thysdrus

O Fresco ao Fundo do Túnel

Já na entrada do deserto, em Matmata, tomamos contato com uma paisagem tão árida, tão selvagem que parecia que estávamos noutro planeta. Foi também aqui que visitamos as inacreditáveis habitações dos trogloditas, povos do deserto que vivem em habitações escavadas na rocha. São verdadeiras obras de engenharia (digo eu que fiz o curso pela farinha Amparo) pela forma como são "construídas" mantendo amenas as temperaturas no seu interior. Os trogloditas, que vivem nestas habitações, receberam-nos como amigos, dando a conhecer a casa, os seus animais, as suas tradições e os seus alimentos (chá e pão).

Matmata

Casa Troglodita

Ninguém diria que foi escavada na rocha

Prosseguindo a viagem (nesta fase já não podia com o autocarro) chegamos finalmente a um oásis, em Douz nas portas do Sahara, onde nos aguardava um deliciosa piscina antes da última e maior aventura do dia...andar de camelo. Sentíamos o deserto ali mesmo ao lado, as suas dunas a mudar com o vento, mas ainda não o tínhamos visto.

Hotel Sahara Douz

A aventura de camelo foi ... indescritível! Primeiro pelo cómico da situação (porque temos que nos vestir como uns verdadeiros beduínos) e depois porque subir para um camelo é das coisas mais cómicas que já fiz na vida. Verdade!! O bicho tem uma paciência para os turistas como nunca vi. Só sei que ri tanto que até já me doía o maxilar, mas lá montamos (o truque é fincar as pernas e agarrarmo-nos ao bicho como se a nossa vida depende-se disso) e arrancámos em direção ao pôr-do-sol. 


Deserto em Souz

 Foi uma experiência única, o vento, a areia (que se mete por todo o lado), as dunas (pequeninas sim, só para turista ver), o pôr-do-sol ...tudo se une para nos proporcionar momentos inesquecíveis só comparáveis com o nascer do dia nos lagos de sal do Sahara. Foi por aqui que no dia seguinte começamos a nossa aventura de regresso a Hammamet. Valeu bem a pena as 3 horas de sono que tivemos (acordamos às 4h para partir em direção ao sol nascente).


Nascer do Sol nos Lagos de Sal

Lagos de Sal

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Daqui seguimos, de 4x4 (um chasso desconfortável e duro), para os Oásis de montanha de Tamerza e Chebika de onde guardo, deste último, 2 imagens: a pequena nascente de água que alimentava todo aquele pedaço luxuriante de terra e a imensidão desértica que rodeava todo o oásis. É uma paisagem que marca, pelo impacto de saber que nada ali sobrevive por muito tempo e que aqueles homens e mulheres ali vivem à centenas de anos.


Nascente do Oásis de Chebika

Vista do Oásis de Chebika

Outra memória que trago de Chebika é que este oásis já esteve debaixo do mar (parece impossível certo?) mas as provas lá estavam, uma rocha com fosseis só possíveis de encontrar debaixo do mar. Como é que noutros tempos o mar cobriu esta zona inóspita do mundo é a pergunta que nos fica na cabeça. Na verdade esta é apenas uma das muitas questões que nos surgem quando percorremos este oásis cuja vida, cultura e gentes e tradições se mantem intocáveis.


Pedra com fosseis do fundo do mar

A viagem prosseguiu daqui para Hammamet, vagarosa e sonolenta, ao som do ar condicionado do autocarro e com todas as imagens de 2 dias onde entramos num universo cheio de contrastes: desertos e montanhas rochosas, a cor da areia (a perder de vista) e as roupas coloridas dos povos do deserto, paisagens selvagens com pequenos oásis de calma e cheios de vida.

Seguimos agora em direção à ultima paragem, a terceira maior cidade da Tunísia, Susse, onde não nos deixaram colocar os pés na mesquita (era hora da oração e a hora da oração é sagrada). Em Susse vimos pela ,primeira vez, Zine El Abidine Ben Ali, conhecido apenas por Ben Ali. Este senhor era o carismático líder (leia-se ditador) tunisino e goza agora umas merecidas férias na Arábia Saudita, depois de ter sido finalmente deposto em Janeiro do ano passado. Nunca ouvi ninguém dizer mal do senhor mas o que diziam soava a falso (porque seria?).


Mesquita de Sousse

Zine El Abidine Ben Ali

 A Tunísia não foi, definitivamente, um país pelo qual me apaixonei à primeira vista (talvez pelo calor e pela "simpatia" das suas gentes) mas as suas paisagens únicas, as águas quentes (e quando digo quentes é quentes, mesmo quentes) e límpidas, as praias de areias finas (algumas com caca de camelo), as mesquitas, as medinas, onde rapidamente aprendemos a regatear até aquilo que não nos interessa, conquistam-nos e rapidamente nos envolve.

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